Luiza
Não sei dizer ao certo porque Luiza era ignorada, uma boneca Estrela de cor preta, grande, com cabelo real, e -pasmem- Luiza fechava os olhos. Ela era grande, tão grande, que parecia um bebê real. Acho que por isso ela foi ignorada por um tempo, era tão grande que sua fiel escudeira nem conseguia segurá-la. Talvez Luiza a intimidasse, não sei...
Pois bem, passamos assim uns 4 meses. Confesso que da minha perspectiva Luiza já poderia ter ido para dentro do armário, ocupava espaço demais e gerava pouco entretenimento, não compensava.
Até que um dia, naquele momento sublime no qual todas estão prontas para sair de casa, tem o protocolo da escolha do brinquedo que vai junto no passeio. Brinquedos variados eram escolhidos mas uma boneca era de praxe. Luiza nunca tinha sido escolhida. Até que, em um belo dia -que eu não me lembro qual, confesso- Luiza foi escolhida.
Todos ficamos surpresos pois Luiza nunca saia de casa. Mas assim foi. Desde esse dia, Luiza começou a fazer parte dos passeios...Eu não me lembro bem, mas quando vimos, Luiza estava indo por tudo com a gente e quando me dei conta fiquei até surpresa, do tipo: nossa, agora a escolhida vem sendo Luiza.
Até que chegou o Carnaval, que é data importante aqui em casa: como casal, nos conhecemos nessa grande festa e Maria Olinda tem o nome da cidade de um dos maiores carnavais desse país. Vale ressaltar, antes de falar sobre o carnaval, que Maria Olinda tem uma relação interessante com seus brinquedos, ela os considera mais como "parceiros", não é uma relação autoritária sabe... Por isso, as bonecas são como se fossem "amigas dela no rolê"... Dito isso, voltemos a história do carnaval.
Como família, nos arrumamos para irmos em um dos blocos de rua aqui perto de casa e, como de costume, explicamos tudo a Maria Olinda, de que íamos para a festa e etc. Pois bem, quando ela estava arrumada e fantasiada, prontamente e muito animada foi buscar Luiza para ir com ela.
Momento tenso. Eu já disse que Luiza é grande? Sim, Luiza é grande e pesada e, sinceramente, o último brinquedo que gostaríamos de levar para o meio de um bloco de carnaval. Nos olhamos, olhamos para elas (Maria Olinda e Luiza) e, sem escolha, levamos Luiza para o carnaval. Se você está ai imaginando a situação, pense que uma criança de 2 anos não vai segurar sua boneca - por mais que goste dela- por mais de 5 minutos. Ou seja, sobrou pra gente.
Mas ai que tudo muda, que tudo acontece, e que Luiza começa a ganhar um espaço no meu coração. Luiza se mostrou a alma da festa, Luiza é um arraso. Ela chama a atenção de todos por onde passa: ela é cativante. Nosso carnaval em família (nós 3) foi simplesmente incrível e -em grande parte- por conta de Luiza. Maria Olinda tinha sua companhia: Luiza ficou toda gosmenta de espuma e confete. Além disso, várias crianças vinham brincar com Maria Olinda pois Maria Olinda quem tinha uma boneca no rolê... Ou seja, filha feliz, pais felizes. Fora os vários adultos que puxavam conversa conosco para entender mais sobre Luiza e o que ela fazia ali. O grande momento também foi falarem que estavamos com a melhor fantasia, a de cuidadores de um bebê. Luiza também deu muitos sustos, muitos a viam jogada e pensavam que era uma criança de verdade, na sarjeta...
Mas um dos pontos mais sutis e mais legais, que me coloca com um outro olhar para com a sociedade, é o fato de que Luiza representa. Luiza é uma boneca preta, Luiza faz sorrir. Quantas pessoas passaram por nós e sorriram desde que Luiza começou a fazer parte dos passeios. Vi um olhar curioso e um sorriso despretensioso por uma parte da sociedade que não é acostumada a se enxergar assim, a se ver representada, em um simples brinquedo de criança. Vi muitos olhares se cruzando e se enxergando em Luiza e foi muito bonito.
O último e mais marcante, que foi a grande inspiração para esse texto, foi no metro esse final de semana. Luiza foi convidada por Maria Olinda para ir com nós passear de metrô. Pois bem, era sábado, então tínhamos cadeiras livres de monte. Eu sentei em uma, Maria Olinda ao meu lado e Luiza na minha frente, sentada no seu próprio assento do metrô. Iamos conversando, durante a viagem, e confesso que para mim Luiza já faz parte de tudo, então já não me pego mais prestando atenção. No entanto, olho pro lado, e o rapaz que estava na fileira a nossa direita, estava fotografando Luiza sentada no seu próprio assento do metrô. Era um rapaz preto, adulto formado, que de alguma forma se enxergou ali.
Que bom que Luiza foi convidada a sair de casa. E não é que as crianças podem mesmo mudar o mundo?
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