a rotina da cidade grande


Acredito no transporte coletivo. Não apoio o uso do ônibus apenas pelo fato de ser uma das melhores, senão a melhor, solução para desafogar o trânsito, nem porque é mais ecológico, mas principalmente porque o ônibus força a convivência: ali dentro daquele espaço o comportamento das pessoas reflete o de uma inteira sociedade. E é por isso que minhas viagens de ônibus rotineiras nunca são tediosas.
Adoro observar. Fico atenta o trajeto todo. Uma das coisas que mais me faz rir é ver as pessoas atrasadas verem seu ônibus se aproximar e começarem a correr, desesperadas. Os mais engraçados, me desculpem os gordinhos, são os gordinhos. Eles põem toda a sua agilidade em prática, tudo para não perderem aquele bendito ônibus. Porque perder o ônibus é desestruturar todo o dia, é como ser esquecido, é não dar oi para o conhecido cobrador, não ver as mesmas pessoas. Aliás, não é por acaso que surgem amores em viagens de ônibus. Tem sempre aquele conhecido desconhecido que pega o ônibus no mesmo lugar, e desce no mesmo lugar. Até chegar o momento em que parece que já se conhecem há um bom tempo.
Como em todo lugar, existem os mal-educados: os que sentam nos lugares proibidos, os que não cumprimentam o motorista e cobrador de todos os dias, os que furam a fila, os que ouvem música alta. Enfim, esses mal-educados são os que andam de ônibus simplesmente por andar, como se fosse algo automatizado, uma máquina sem vida, sem a presença de outras pessoas, como se fosse simplesmente um transporte que cumpre o dever de leva-los até em casa.
E tem os funcionários que cumprem seu serviço como se fossem máquinas. Os motoristas que se limitam a dirigir, e os cobradores que agem como uma máquina de troco. Não dão oi, não se fazem perceber, simplesmente fazem a atividade a que foram designados.  E assim dia após dia. Como se a vida fosse todo o dia a mesma.
E eu pensava que todos fossem assim, até ter que mudar de linha e conhecer aquela cobradora. Ela é especial. Descobri isso desde a primeira vez que andei naquele ônibus. Fui passar o TRI como sempre fiz, sem nem olhar direito para o cobrador... Mas ai, vi que a roleta não girava, prestei atenção, e a moça só iria autorizar minha passagem em troca de um oi. Ela não disse isso, mas eu percebi. Percebi que ela queria ser percebida, não queria ser tratada como máquina, porque, ela, de fato não era.  E dali em diante eu trocava um “bom dia” pelo serviço dela. Uma troca justa, eu diria. No entanto, não ficou por ai, ela conseguiu me surpreender mais ainda. Na semana do dia das crianças, o ônibus estava cheio de balões coloridos, e ela vestida de Boneca Emília.
Acredito que essas atitudes –cumprimentar, agradecer, celebrar o dia das crianças- são banais para algumas pessoas, mas aqueles que fazem seu serviço com grandeza me impressionam. Tem um ditado que diz: “não existem papeis pequenos, existem pessoas pequenas”, ou seja, não importa o que se faça desde que se faça bem. 

Comentários

  1. Bela percepção, Rebi. Sou adepto a gestos que possam provocar algum tipo de alteração (benéfica, é claro) nas pessoas. É isso que todos buscam na vida: algum estímulo que lhe provoque alguma alteração - seja nos pensamentos, seja nos sentimentos. Quase um Patch Adams.

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